NO TOC TOC TOC DO COMPUTADOR
10 de outubro de 2011
Dona Clemência afastasse do computador e inicia as orações temendo ser um equipamento maligno. Simplício, agora no lugar de Clemência, começa a utilizá-lo. No toc toc toc do teclado, tenta realizar o cadastro na homepage, para comprar objetos, sem sair de casa. A comodidade da cibernética.
Não ausentasse de casa por nada. Estamos em Guerra Civil? Acredito que não, porque somos ordeiro e cordeiros, mas não tiramos o pecado do mundo, então tende piedade de nós. Amém.
Seu Simplício, apertando o botão para finalizar o cadastro, observa a mensagem de erro, pedindo para refazer o mesmo. Ele repete o procedimento, e novamente a mesma mensagem. Simplício encontra-se nervoso. São tantos dados que ele se perde nas dez páginas de preenchimento do formulário.
- Vem rezar, convida dona Clemência, olhando o esposo Simplício.
Novamente erro, e seu Simplício padece da frustração crônica. Nas raras vezes que consegue manipular o equipamento, o mesmo apresenta erros diversos. A máquina esta dodói e deixa a gente dodói.
Impõem-se a necessidade do computador, depois dependente ficamos do mesmo. Dizia ser para grandes utilidades, mas é utilizado para grandes futilidades. Dizia ser a grande diversão, que resultou no passatempo de viver na solidão. O computador faz-se de nós um sofredor, que sofre na multidão por estar sozinho em comunhão. É nosso maior amigo e melhor inimigo.
As pessoas conversam pelo computador, estabelecem relacionamentos com quem desconhece. Abre suas emoções, conflitos, angustias para pessoas inexistentes. Louco é apenas o filósofo a falar sozinho? Computador é o amigo imaginário do adulto. Os pequeninhos com colegas fantasiosos, os adultos com relacionamentos fantasmagóricos. Você é grandinho e também tem seus imaginários amiguinhos, então não subestime seu pequenino.
O computador serve para tudo, e ao mesmo tempo significa o nada, o vazio, o isolamento do mundo. Na verdade é o nada do todo. É a modernidade do regresso moral, ou o afloramento da imoralidade normal?
Seu Simplício joga a toalha da grande odisséia. Esta nervoso, abatido, apático, quando chega seu filho e diz: - Pai hoje é o ultimo dia para o cadastro da aposentadoria. Não esquece. Usa o computador que é mais rápido.
Seria uma profecia? Seu Simplício, com olhar trêmulo á aquela máquina esquisita diz: - Agora compreendo porque o chamam de computador, por causa da grande dor que nos traz. Se fosse moderno chamaria com pouca dor.
Dona Clemência na sala complementa: - Tende piedade de nós.
(crônica publicada em 08 de outubro de 2011, no jornal GAZETA REGIONAL – Lucélia – SP)
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