DONA DECÊNCIA DOLORES
16 de outubro de 2011
Senhora Decência Dolores, com dores pelo corpo, com seus 99 anos de sabedoria, caminha em direção a Unidade de Saúde de Urgências e Emergências. De frente ao balcão, iniciasse sua prosa ritmada. Interrompida pela agente de saúde, que pede-paciência: a senhora Dolores. Esta lotado.
As horas passam, e a senhora Decência reflete sobre o tempo: “Já estou nos acréscimos”. Complementa: “Meu sobrenome é o reflexo do meu nome”.
Esperando, receando a dor que vem chegando, entrando, chegando. Esses são seus sentimentos, que a fazem caminhar para o longínquo.
Passada a paciência, direciona-se para a Santa Casa, mas santo de casa não é o prodígio. Novamente encontra-se com as multidões. Dona Decência, carregando a dor da desconsideração, do ressentimento, da consternação de viver uma vida decente, entre atitudes indecentes.
Decência velha de guerra. Decência Dolores. A angústia de ser decente.
Gente entrando, saindo, criança chorando, outros sorrindo.
Nascemos doentes? Ou escolhemos estar doentes ao mesmo tempo?
Dona Decência! Começasse a refletir uma solução para seus conflitos. Seria ausentar-se do convívio social? Seria levar uma vida mais “normal”? Seria se preocupar apenas com o trivial? Ou entrar na odisséia da futilidade material? Seria uma nova mulher? Seria a dona Indecência Felizberta?
Os conhecidos indicam algumas receitas, um verdadeiro coquetel molotov para adiar o descompasso fisiológico do eu físico: antiflamatórios, antibióticos, antitérmicos. Para o eu mental não há comprimidos.
Sentada, tranquila. A senhora Decência Dolores, aliviada, devido à ausência momentânea das peripécias da vida, do sentimento desagradável da dor física. Mesmo assim sente-se aborrecida.
Nascemos doentes, vivemos doentes e morremos doentes. Somos alvejados a todo o momento com maledicências, com incoerências bem coerentes, quando analisadas em seus rodapés, um pouco descrente.
A doença esta em viver uma vida doente. Tudo é mental. Somos vítimas e autores de nossos próprios males. Não há sistema de saúde que suporte tais comportamentos humanos de autodestruição que infringindo a nós mesmos.
Seria a vida uma viagem aos confins do universo? Unidades de saúde continuam lotadas, continuarão lotadas, enquanto continuarmos com atitudes desastradas. Como persuadir o sofrimento a voltar amanhã, se eu continuo com atitudes a devastar minha mente sã?
Decência, quase um século se passou e nada mudou. É na ausência da complacência dos irmãos, que a decência transforma-se na indecência da indiferença.
(Crônica publicada em 15 de outubro de 2011, no jornal GAZETA REGIONAL – Lucélia – SP)
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