Por Danilo Pelloso

OS ANJOS CIRURGIÕES
17 de novembro de 2011


Toda cirurgia é aquela confusão.
De antemão o temor em consentir nossa vida nas mãos dos cirurgiões irmãos. Adentra o receio de toda a situação.
No quarto, padece a espera do momento.
Aquela multidão de pessoas, com vários objetos cortantes em uma bandeja esterilizada. Bisturis para todas as situações, mesmo a contragosto. Gostando ou não gostando o cirurgião continuará cortando.
Da incisão a esperança de uma vida em comunhão, sem a dependência direta de vários irmãos.
Amedronta-me o olhar piedoso daquela luz ofuscante, acima da estreita mesa cirúrgica, cujo corpo posteriormente inanimado, estará no repouso esperado.
As luzes assemelham-se a holofotes, focalizando o objeto em destaque. Sinto-me uma estrela brilhante, com toda aquela luz irradiante.
O anestesista. Uhnnn. Chegou o momento de iniciar o sono profundo do maleato. O profissional mais aguardado do evento.
Misturam-se algumas substâncias anestésicas baseada no peso do que padece. No sono profundo, do corpo exposto, não mais encontra a preocupação em meu rosto.
Estados hipnóticos para procedimentos dolorosos. O transe provocado por substância que no momento é de bom grado.
Se o paciente a casa não retornar, pelo menos terá a luminescência no final do túnel, a luz fatídica que todos vêem, mas que ausentasse o retorno para blindar-nos com suas observâncias.
Preparada a criança, jaz a esperança que tudo proceda, com concordância.
Os pais começam a orar no ritmo desenfreado do terço cansativo. Ave Maria alternada com a oração do Pai Nosso. Jesus ou Genésio? Já perdi a contagem do terço.
As enfermeiras preparam o paciente para os procedimentos cirúrgicos, despindo-o, inclinando de um lado ao outro. Marionete do centro cirúrgico, assim como o teatro de fantoches da vida cotidiana.
Procedimentos médicos.
Na mesa cirúrgica continuo eu a estar. O procedimento iniciará. Vários profissionais ao lado da mesa auxiliando o cirurgião.
O espetáculo se inicia.
Ajeitasse a luz focando a abertura na carne. Bisturizada na carne fresca. É a corrida contra o tempo. Todos se empenhando e o bonitão, proprietário deste problemão, dormindo, sem preocupação.
Nos problemas de uns, o alívio dos mesmos.
A mão do cirurgião é precisa. É preciso ser preciso. A incisão é feita com perfeição. Não pode ter pressa, mas inexiste tempo perdido.
O médico já sabe de antemão o que realizará. Fora disso é a improvisação que o exercício profissional necessita.
Estou dormindo os sonhos dos anjos. Anjos estes que me parecem bem familiares, adentrando no centro cirúrgico.
Os anjos arrancando um sorriso natural deste corpo material. Gostaria de prosseguir meu caminho com eles, mas para isso o cirurgião tem que errar, e eles raramente erram.
Chegou o grande dia, penso eu. Vou adentrar na morada do plano cósmico invisível.
O cirurgião tem tudo em suas mãos, e não tem nada sob controle.
Tudo depende dos anjos. A criatura voltando ao criador.
Há o chamado? Algo sai errado. Há o descontrole no centro cirúrgico. Procedimento feito com perfeição, mesmo assim terá a improvisação.
Os anjos, vestidos de longas roupas brancas, continuam a acompanhar todo o procedimento.
Uma nova incisão é realizada. Hemorragia interna. O médico solicita o instrumento adequado para interromper o fluxo sanguineo exacerbado.
Algo saíra errado?
Os celestes, a força cósmica do universo paralelo. A energia subliminar que rege todas as criaturas continua a acompanhar todo o procedimento, e o cirurgião a cirurgia proceder com muito empenho.
Os anjos estendem as mãos, para auxiliar o cirurgião, em sua missão. Outro com vibração tranquiliza seu espírito inquietante, com os erros ocorridos, a todo instante, um alivio.
Joseph Mengele? Esse não. Minha complacência não é celeste. Esse transformaria meu ser material em farrapos e frangalhos como um maestro com bisturi a conduzir uma orquestra fúnebre.
Uma iluminação.
O cirurgião consegue a solução, concedendo a nova vida a este irmão. Vozes são escutadas. Doutor, o senhor conseguiu. Parabéns. Na conquista de um, o auxílio de muitos.
Os anjos concedem-me um sorriso, e em tons sublimes, na frequência do inaudível, deixa a mensagem que não chegaste à hora de compartilhar o convívio celeste.
Aflito e entristecido, com um olhar azul pálido, pintado com pouca tinta, ausenta-se a expressão.
Os anjos se despedem caminhando pela sala cirúrgica, transforma-se num foco de luz, irradiante, nas alturas.
Complacência médica dos auxiliadores arcanjos? Oportunidade perdida do celeste convívio entre os anjos?
A resposta para minhas indagações inexiste neste plano da existência. Os anjos continuam comigo, solucionando e acalmando as minhas inquietações. São meus melhores amigos, do plano invisível do inaudível.

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