Por Danilo Pelloso

A FESTIVA DO FUNERAL
20 de novembro de 2011


Senhor Felisberto, conseguira um império com suas empresas. Agora dentro do belo caixão aberto, confeccionado em madeira de lei, consistente e resistente, para não ceder ao ilustre corpo inanimado presente. Glorificado ou difamado? Todos vestidos de preto, aparentemente consternados.
Na entrada, a lista de visitantes. Os participantes tecem comentários: importunos, inebriantes e cativantes: “como Felisberto está irradiante, vivo e alegre neste caixão” Preparo especial da empresa funerária.
Cerimônia fúnebre, a representação perfeita da sociedade: comediantes, artistas cênicos, atores e atrizes da vida cotidiana, em sua funesta encenação.
A exposição do frágil ego torna-se a essência da fútil verdade. São vestidos luxuosos, coroas suntuosas, enviadas por famílias “grandiosas”, não respeitosas. No descompasso com a verdade, a vaidade.
Há o indivíduo que aproveita a ocasião para proferir cobranças ao irmão. E o amigo que deseja a mulher alheia, estando o corpo em centelha. Pessoas se desculpando pelo atraso, e quando observa, adentraram no funeral errado. Intrigantes parentes entrando lentamente.
Displicentes. Choro de tristeza? Abraços, beijos, sorrisos.
Na herança de Felisberto jaz a esperança de sair da masmorra do débito mundano.
Tumulto. Parentes em conflitos.
Ex-Felisberto, ex-analfabeto, com os orifícios abarrotados de algodão, com a boca costurada, corpo enrijecido. Agora morto.
Os parentes o levanta e o deixado sentado numa cadeira junto à mesa, caneta entre os dedos, fingindo assinar os documentos do testamento. Fotos e poses a todo o momento.
Veículos no cortejo do saudoso Felisberto. E a sustentabilidade do uso excessivo do combustível? Esse é precavido. O enterro inicia. Preparasse o concreto reforçado. É proposta a idéia da cremação. Caução ao não retorno de Felisberto.
Simbologia da morte. A expressão aparente. Da batalha infindável consigo mesmo mostrar-se complacente. Coisas que seu íntimo não sente.
No mundo das aparências e ilusões, os freqüentadores desta festa fúnebre são os principais anfitriões.
São os artistas encenando no próprio teatro da vida.
Da morte de uns, a indiferença de muitos. Chora-se não pela perda, mas pelo remorso, por não ter tratado as pessoas, de forma verdadeira.
Crônica publicada dia 19 de novembro de 2011, no jornal Gazeta Regional – Lucélia, SP

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