AO MESTRE EM DEVANEIO
10 de dezembro de 2011
Dia nublado, cinzento, com pouco vento. Ideal para realizar as atividades ao relento. Na grande fazenda experimental, retirando o próprio sustento.
Vestido com uma roupa esquisita. Máscara, avental, calça comprida, semelhante a um lençol. Esquecera da bota.
Todo equipamento necessário, para situação desnecessária.
Equipamentos mais equipamentos. Roupas apropriadas para proteger dos perigos dos próprios atos desmedidos.
Uma simples pulverização. No carbofuran, as pragas, em extinção.
Caminho com o pulverizador nas vértebras lombares. Com a calda preparada, a cervical.
Cuidados necessários.
Alguns estudantes recheados de graça. Ocasião simples e necessariamente cautelosa.
O que extingui o inseto, não traz em mim muito afeto.
Vigilante com todo o procedimento.
Inicia-se o ritual semanal. Caminhando no corredor da cultura a pulverizar todas as plantas, que no assalto da praga, a própria dor do anterior desalento.
Enquanto a cultura grata ao auxílio realizado, eu continuo a pulverizar o esperado, e o impensado.
O cotidiano de um universitário de Engenharia Agronômica.
Agora, com todas as plantas avaliadas, estou tranquilo para retornar a minha morada.
Observo a presença do meu orientador analisando todo o experimento.
O mesmo não observara a minha presença. Naquela fatídica manhã de sábado, deixara o mesmo calado. Pregara uma verdadeira peça.
Eu vestido com todo o equipamento de proteção, trocara a calda simplesmente por água.
Sigo junto ao professor, e com o pescoço inclinado para baixo, como quem não quer nada, dou aquela caprichada esguichada.
Pulverizara o mestre com a água, no exercício do seu próprio ofício, acompanhado de desculpas pelo ocorrido.
O mestre inicia-se o ritual de quem sofrera um envenenamento agudo de carbofuran. Palpitações, ânsia de vômitos e sudorese exacerbada.
Passara mal, apenas por ver-me vestido para uma situação sem motivo.
Naquele tanque, daquela manhã, havia apenas água e um pouco de detergente. Naquele tanque, naquela manhã inexistia o carbofuran.
Gargalhadas, gargalhadas.
O mestre só reconquista o fôlego após revelado o segredo.
Mesmo com medo, o mestre começou a sorrir, e proferir: “Que susto que me deste meu aprendiz”.
Gargalhadas são escutadas.
Meu mestre sempre me ensinara, através das palavras e dos exemplos, o ato de viver em complacência, em concordância. Dessa situação inusitada retiro o aprendizado.
Agora começo a refletir: “O mesmo acontece na crença. No ato de acreditar no mal, a manifestação psicossomática, no ser social”.
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