DONA INOCÊNCIA E SEUS ONZE FILHOS
14 de setembro de 2011
No posto de saúde, na fila da farmácia, Dona Inocência, e seus onze filhos, estando um contido em seu ventre. Tudo esta normal, mas dona Inocência sente que seus filhos doentes, estão descontentes.
As crianças não se preocupam e sim preocupam aquela mamãe. Fazem aquela algazarra. Tudo é festa. Tudo é diversão. Abrem a porta das salas, entra e sai dos banheiros, correm pelos corredores, falam alto por todo o posto a todo o momento.
Dona Inocência aventura-se em acalma os ânimos da garotada repreendendo-as.
- Parem. Parem. Aqui não se pode brincar. Aqui estão as pessoas a sarar e não a brincar, então meus pequeninos, silencio. Eu disse silêncio.
A garotada se acalma um pouquinho, mas as peripécias novamente recomeçam.
Tem menino e meninas alternados com as idades de doze, onze, nove, oito, sete, seis e assim por diante.
Parece contagem regressiva de filme de ficção científica.
A funcionária do posto de saúde orienta mamãe a deixar as crianças a vontade. Não há incomodo, já que estão de partida.
Dona Inocência continua na fila, mas agora suas pernas incham, devido à demora em atender uma senhora, que em idade avançada, apresenta dificuldade em sua empreitada.
Mamãe sente-se aborrecida por ainda continuar na fila e não ter sido atendida. Passando a mão no rosto, profere agora palavras em desagrado: - o governo não auxilia. Eu aguardo tanto para pegar apenas alguns remedinhos. “Pegar alguns remedinhos”. Ninguém observa o meu problema. Não há apoio, não há nada, não há ninguém. Ninguém, ninguém. E complementa:
- Criar onzes filhos sozinha não é simples. Tenho que sustentá-los. Dar o alimento, dar um lar...
Dar, dar e mais dar. Tenho, tenho e mais tenho.
As pessoas, no posto de saúde observam a maioria sensibilizada, pela algazarra agora realizada pela dona Inocência.
Eu continuo sentado esperando chegar minha vez. É mais fácil chegar a depressão em escutar tamanha confusão.
Demorará um bocadinho, porque dona Inocência, com seus onze filhos, continua a minha frente, nesta fanfarra incoerente.
O posto de saúde, na voz da eterna Inocência, que a todo o momento nos traz sua presencia, juntamente com seus pequeninos, faz-se, do singelo posto, a folia de reis, que todo mês de janeiro é proposto.
Tumultos e mais tumultos, útil apenas para o inútil.
Chegou à hora do atendimento. Dona Inocência, a guerreira mamãe, será atendida. Debruçada sobre o balcão, mostra a lista de medicamentos fundamental para que a saúde de seus filhos volte ao normal.
A pequena lista é um pouquinho maior, que a normalmente utilizada para fazer a compra mensal. São antiflamatórios, anestésicos, analgésicos, antibióticos, antitérmicos, xaropes expectorantes, medicamentos para o coração, pressão, diabetes..., artrite, artrose. Se continuar neste ritmo intenso na próxima visita desta guerreira mamãe, que não esta longe devido a alta necessidade pode-se incluir: esclerose, epilepsia, esquizofrenia...
Medicamentos para dormir, medicamentos para acordar. Medicamentos, medicamentos e mais medicamentos. São tantos medicamentos que para atender dona Inocência, os agentes de saúde necessitam consultar o compêndio verificando assim alguma incoerência.
Mamãe guerreira assemelhasse mais a correspondente de auxílio humanitário em campos de refugiados de guerra. E dependendo da guerra a menos necessidade que a família de dona Inocência.
Os medicamentos são colocados em caixas lacradas.
Seus pequeninos continuam a fazer os estardalhaços, as algazarras. Mamãe agora confere a lista para ver se faltou algum.
A agente de saúde olha para dona Inocência, colocando as caixas no balcão indicando que os medicamentos estão separados.
Dona Inocência e seus onze filhos sendo um em seu ventre.
Cadastros e mais cadastros. Bolsa família, auxílio alimentação, transporte, gás, medicamento...
Bolsas e mais bolsas. Auxílios e mais auxílios.
Escuta-se dizer: - família grande é assim mesmo.
Dona Inocência com os pequeninos a sua volta, saem com as caixas de medicamentos em seus ombros, dizendo que o atendimento é lento, que o governo não funciona, que o governo não auxilia ninguém, que o governo..., que o governo...
Fico eu a imaginar: imagina o que seria de dona Inocência e seus onze filhos sendo um no ventre se o governo realmente não auxiliasse? É por isso que se chama dona Inocência.
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