Por Danilo Pelloso

DO CASARÃO A SENZALA
14 de dezembro de 2011


A normalidade no trabalho poderia ser estabelecida se não fosse por um único e inusitado detalhe. Em visita a uma propriedade, a mesma mostrou-se não ser uma casa de caridade.
A própria história em suas nuances mais abruptas e inoportunas, que deve ser lembrada a todo o momento para que não se repita no próprio desassossego.
Um casarão, com um local ao lado confeccionado na rocha.
Atualmente desenvolve a fruticultura, mas nem tudo são flores nos campos floridos.
Hoje onde aparenta a calmaria já fora lugar de tristeza, de serventia. Antigamente área com cana-de-açúcar, com seus senhores de engenho e os escravos aprisionados na senzala. Naquela casa de pedra, a dura morada.
Adentrei naquele lugar funesto que antes fora do barão. Fotos na galeria daquele grande salão composto de uma parede vermelha sangue, sangue negro de escravos escravizados.
Barulhos de correntes eram escutados. No arrasto o próprio grito. Murmúrios, lamentos.
Na luta, a auto defesa, o ritual tratado com destreza. Riqueza de vermelho sangue. Da luxúria, a exploração. Dentro dos quadros os grandes reis daqueles escravos.
Minha inquietação fora tanto que não suportei e comecei a tirar fotos de toda a propriedade, principalmente na casa dos escravos, da vassalagem como era conhecida.
Local escuro, não apresentando distinção entre o negro sofrido das paredes e o negro aflito entre as muralhas.
Úmida, com aparência grotesca.
Marcas nas pedras. Correntes.
A parede. A maldita parede vermelha mesclado com sangue negro. Lugar fétido, desagradável. Como diz a lenda, lugar de escravo.
Toda aquela cena deixara-me atordoado.
Observava apenas em documentários o sofrimento dos escravizados.
Diferente torna-se pisar no local do acontecido. Na realidade dos fatos a verdade dos atos.
Abandono àquele local entristecido, assim como a família que lá vive, atormentada por influências do desconhecido.
Escuto relatos, estudo conflitos. Aquele local indiferente esta repleto de toda aquela gente. Escravos que padeceram escravos que sofreram. Da discriminação social a normalidade daquele local. Atualmente não me sai da lembrança, principalmente a senzala e o casarão, a discrepância.
Da exploração de muitos o enriquecimento de alguns.
Num local com esse passado sombrio de atrocidades e de domínio do próximo, resta-se apenas a tristeza dos escravos que não conseguiram se libertar, mesmo após o eu físico não mais lá estar.

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