Por Danilo Pelloso

O SAPATEADO
14 de dezembro de 2011


A criança nascera com uma habilidade intrínseca.
Curiosidade. O inusitado beirando ao bizarro. Nascera com a habilidade de sapatear.
Isso mesmo sapatear.
Não conseguira andar nem ao menos caminhar apenas sapatear. Combinação entre habilidade, precisão e rapidez na desenvoltura dos mexer dos pés.
Mal completara um ano de vida e já batia os pés de forma ritmada no chão, fazendo estalinhos, rançando aplausos de antemão.
Da fama ao próprio drama.
Encantava a todos os convidados. O grande anfitrião.
No início os pais achavam tudo engraçado, como tudo, em tenra idade, torna-se engraçado.
Havia apenas um problema. A criança não conseguira sair do lugar.
Conduziram-na ao médico, especialista em distúrbios do sistema locomotor. Alias do locomotor só tem o louco do motor.
Inexistia erro naquela criança afável, cuja única esperança era conseguir sair do lugar onde fora colocada. Esse era o principal anseio.
Outra visita.
Agora ao psiquiatra, com objetivo de averiguar transtornos de natureza psíquica.
Transtornos esses se bem analisados seriamos todos diagnosticados. Doutor.
Realizara vários testes. De tomografia computadorizada a ressonância magnética. Observou-se tudo para detectar o nada.
Inexistiam explicações para o ato bizarro, mas muito engraçado do sapatear daquele bebe afável.
Os mais religiosos diziam ser coisas do mal, alias, desconsidere determinadas opiniões porque tudo é coisa do demônio para aquele que nele acredita, e em torno da fé, dos problemas se esquiva.
Nunca ouvira essa mesma gente falar em coisa diferente a não ser o mal. Em sua mente esta embutida esse único fato, que não contribui em nada para a solução do problema.
Das peripécias da vida a origem maligna do inexistente.
Os mais sociáveis disseram ser um dom, uma habilidade intrínseca ao ser vivente, aquela doce e querida criança, que sapateia como ninguém.
Seria um novo astro da arte de dançar.
Não seria o primeiro, nem ao menos o último. Algumas crianças nasceram com o mesmo dom, a arte de sapatear.
O quadro passou do engraçado, ao bizarro e agora adentrando o grotesco. Essa habilidade estava contagiando. Todas as crianças e adultos no mesmo compasso do sapateado.
Nas ruas todos sapateavam. Todos parados sapateando.
A inércia ao movimento que move o mundo.
No ato de sapatear movesse desprendendo energia vital sem ao menos criar movimento de expansão.
Seria um novo projeto governamental? Acredito que não.
As pessoas agem por si só, apesar de existir o inusitado que paira a calmaria.
Sapateando, sapateando, realizando os mesmos movimentos do arco reflexo, a mesma besteira, no mesmo pensamento infantil de uma vida corriqueira.
Jovens e adultos no sapateado.
Cada um ao seu modo, cada um com o seu dom de ser inoportuno para consigo mesmo.
Não conduz ao progresso, nem ao menos ao conhecimento. No regresso espiritual tem-se o próprio devaneio, mas é divertido, ver todos sapateando no mesmo ritmo.
Parado, estagnado, desiludido. A música muda, mas o passo é o mesmo.
Quem é o maestro?

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