Por Danilo Pelloso

REQUERIMENTO
16 de setembro de 2011 *(Informação acrescentada em 18.09.11)


Seu Ernesto, com 80 anos de idade, necessitando abrir uma conta bancária para o recebimento da aposentadoria, falta a “bendita certidão”.
A cem quilômetros de distância de sua residência, segue o bom homem para a repartição pública mais próxima, responsável pelo fornecimento da tal declaração.
Ao adentrar na repartição é direcionado para o atendimento preferencial. É idoso, caridoso, bondoso, então merece ser atendido com bom gosto.
O atendente solicita documentos para emissão da certidão do senhor Ernesto. Começam as solicitações: registro geral, comprovante de residência, título de eleitor, comprovante de alistamento militar, comprovante de votação nas duas últimas eleições... Quantos comprovantes! Seu Ernesto teme obter uma lesão por movimentos repetitivos, de tanto retirar documentos da pasta.
Encerrada as solicitações dos documentos, surgi à via crucis das certidões. O atendente continua: certidão de nascimento, certidão de casamento, certidão de antecedentes criminais, certidão de ausência de pendências junto à justiça federal e estadual, certidão de ausência de pendência junto à justiça eleitoral, certidão do ministério do trabalho. Só faltam as certidões de batizado, crismado e santificado, mas seu Ernesto não esta longe disso não. Certidões, certidões e mais certidões.
Seu Ernesto nervoso observa a ausência de documentos e de certidões importantíssimas, como a do dia em que nasceram seus dentes de leite.
Agora o cadastro do senhor Ernesto é consultado para saber se há pendência. Depois de tudo apresentado é possível haver pendências?
Ela existe. Ernesto não declarou o imposto de renda do ano anterior.
O velho homem, com as mãos trêmulas, retira do bolso do paletó uma caixa, contendo tranquilizantes. Na medida em que o atendente explica o que fazer, os medicamentos de seu Ernesto começam da caixa desaparecer.
Agora o velho bom homem encontra-se caído no carpete da repartição, enquanto o atendente continua com a sua explicação.
O segurança retira seu Ernesto daquele ambiente antes agradável agora de mal grado. Uma simples certidão! Uma simples certidão que em 80 anos de existência, seu Ernesto não conseguira ter em suas mãos.
Seu Ernesto, querendo ou não querendo, é patriota, morreu requerendo a bendita certidão. Morreu sim, mas com o protocolo dela em suas mãos.
* (crônica publicada em 17 de setembro de 2011 no GAZETA REGIONAL – Lucélia – SP)

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