Duas tentativas de suicídio em três dias chamam atenção para a saúde mental em Adamantina
Nossa Lucélia - 27.09.2026
Secretaria de Saúde detalha estrutura, profissionais e fluxo de atendimentosAdamantina (SP) - Duas ocorrências envolvendo tentativas de suicídio mobilizaram equipes de socorro e serviços de saúde de Adamantina nesta semana. O primeiro caso aconteceu na noite de domingo (20) e o segundo, na manhã de quarta-feira (23). Além da mobilização dos serviços de emergência, as situações repercutiram na comunidade e voltaram a colocar em evidência um tema que exige atenção permanente: a saúde mental.
Os episódios ocorreram justamente durante o Setembro Amarelo, campanha nacional de conscientização sobre a prevenção do suicídio e a valorização da vida. Em Adamantina, a mobilização em torno do tema já teve períodos de maior articulação e presença pública, mas a campanha tem tido menor visibilidade ao longo dos últimos anos.
Diante das duas ocorrências, o Siga Mais procurou a Secretaria Municipal de Saúde para conhecer como está estruturada atualmente a rede de atendimento em saúde mental no município, quais são as portas de entrada para quem precisa de ajuda, como funcionam os encaminhamentos, qual é a estrutura profissional disponível e se existe fila para consultas psicológicas e psiquiátricas.
A resposta foi encaminhada à reportagem em nota assinada pela secretária municipal de Saúde, Elisabete Cristina Jacomasso Marquetti. O conteúdo foi estruturado a partir da devolutiva institucional do poder público municipal.
Saúde mental: rede de saúde e cuidados compartilhados
De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a Rede Municipal de Saúde Mental funciona de maneira integrada à Atenção Primária e aos demais pontos da rede de saúde.
Nesse modelo, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e as Estratégias de Saúde da Família (ESF) são apresentadas como a principal porta de entrada do SUS. Nesses locais, a equipe realiza acolhimento, escuta, avaliação inicial, identificação de situações de risco, intervenções e encaminhamentos de acordo com a necessidade de cada paciente.
A secretaria destaca que o CAPS I — Centro de Atenção Psicossocial — é destinado principalmente a pessoas com transtornos mentais graves e persistentes e a situações que exigem acompanhamento especializado e, conforme a avaliação da equipe, cuidado intensivo ou semi-intensivo.
Também integram a estrutura municipal os atendimentos médicos especializados em psiquiatria, os atendimentos psicológicos, os serviços de urgência e emergência e os demais pontos da Rede de Atenção à Saúde.
A lógica, segundo a secretaria, é de cuidado compartilhado. Por isso, o CAPS não deve ser entendido como a única porta de entrada para quem enfrenta sofrimento psíquico.
Como procurar ajuda
Para o morador que precisa de atendimento relacionado à saúde mental, a orientação da Secretaria de Saúde é procurar diretamente a UBS ou ESF de referência.
Nesse primeiro contato, a equipe realiza o acolhimento e a avaliação. A partir dessa análise, o paciente pode permanecer em acompanhamento na própria Atenção Primária ou ser encaminhado para atendimento especializado, CAPS ou outro serviço da rede.
Segundo o poder público essa organização é importante porque nem todo sofrimento psíquico exige, necessariamente, atendimento em um serviço especializado. De acordo com a secretaria municipal de saúde, a Atenção Primária pode acompanhar casos, identificar precocemente situações de agravamento e coordenar o acesso a outros profissionais e serviços.
Quando existe uma situação de crise, comportamento suicida ou risco iminente, porém, o fluxo é diferente. O órgão municipal orienta a procura imediata de um serviço de urgência e emergência, como o Pronto-Socorro.
Depois do atendimento da situação aguda, a rede municipal deve articular a continuidade do cuidado, de acordo com a avaliação individual do paciente.
Há demanda e espera por psicologia e psiquiatriaUm dos questionamentos feitos pelo Siga Mais à Secretaria de Saúde foi sobre a existência de fila de espera para atendimento em saúde mental.
A resposta confirma que existe demanda por atendimento psicológico e psiquiátrico e que, em determinadas situações, o acesso ao atendimento especializado depende de regulação e disponibilidade de agenda.
A secretaria, porém, não apresentou na resposta o número de pessoas atualmente aguardando atendimento, nem o tempo médio de espera para psicologia ou psiquiatria.
O órgão municipal ressalta que é necessário diferenciar a demanda por consultas especializadas das situações de crise ou risco. Casos classificados como urgentes ou de maior gravidade são avaliados segundo critérios clínicos e recebem encaminhamento prioritário dentro da rede.
Outro ponto destacado é que a proposta da rede é evitar que uma pessoa simplesmente permaneça aguardando uma consulta especializada sem qualquer acompanhamento.
Enquanto aguarda eventual atendimento especializado, o paciente pode ser acompanhado pela Atenção Primária ou por outros serviços da rede, de acordo com sua situação.
CAPS I tem três psiquiatras e dois psicólogos
Em relação à estrutura profissional, a Secretaria Municipal de Saúde informou que a rede conta com profissionais de psicologia e psiquiatria distribuídos entre diferentes pontos de atenção.
No CAPS I, especificamente, segundo o poder público, são três médicos psiquiatras e dois psicólogos, além de equipe multiprofissional, coordenação, profissionais de enfermagem e outros trabalhadores.
A secretaria acrescenta que existem profissionais de psicologia e psiquiatria também vinculados a outros serviços e fluxos especializados da rede municipal.
O município, entretanto, não apresenta na resposta o número total de psicólogos e psiquiatras considerando toda a rede.
Segundo a Secretaria de Saúde, a avaliação sobre a suficiência da equipe não deve considerar somente o número absoluto de profissionais, mas também fatores como volume e perfil da demanda, carga horária, complexidade dos casos e necessidade de acompanhamento continuado.
O órgão afirma acompanhar permanentemente a demanda e avaliar a necessidade de ampliar ou reorganizar a oferta, considerando critérios técnicos e assistenciais, além da disponibilidade orçamentária e de recursos humanos.
Atendimento envolve diferentes serviços
A assistência em saúde mental, conforme a secretaria, não ocorre de maneira isolada.
O município informa manter articulação entre Atenção Primária, CAPS, serviços especializados, Santa Casa, rede de urgência e emergência, além de instituições parceiras e fluxos regionais de referência quando necessários.
Quando determinada necessidade ultrapassa a capacidade instalada no município, são utilizados mecanismos de regulação e encaminhamento para serviços de referência.
A proposta é que o atendimento acompanhe o grau de complexidade de cada situação, evitando que o paciente seja atendido de maneira fragmentada.
Tentativa de suicídio é situação de urgênciaAo responder ao questionamento sobre prevenção do suicídio, a Secretaria Municipal de Saúde afirma que o tema deve ser tratado como responsabilidade permanente da rede e não apenas como uma ação pontual diante de ocorrências.
A estratégia apresentada pelo município envolve prevenção, identificação precoce, acolhimento, tratamento, acompanhamento e continuidade do cuidado, articulando Atenção Primária, CAPS, serviços especializados e urgência e emergência.
A secretaria também enfatiza que tentativas de suicídio constituem situações de urgência em saúde, que exigem acolhimento imediato, avaliação de risco e proteção da pessoa, seguidos do acompanhamento pela rede.
Nesse contexto, a identificação de sinais de sofrimento não é responsabilidade exclusiva dos profissionais de saúde. Familiares, amigos, profissionais da educação e outras pessoas que convivem com alguém em sofrimento podem ter papel importante na identificação precoce e no encaminhamento para atendimento.
O que fazer diante de uma situação de risco
Em situações de sofrimento intenso ou risco de suicídio, a orientação oficial é procurar imediatamente uma unidade de saúde ou serviço de urgência.
Em situações de emergência, o serviço 192 pode ser acionado.
A orientação é especialmente importante diante de uma situação aguda, quando não se deve aguardar uma consulta previamente agendada ou tentar resolver sozinho o problema.
Setembro Amarelo e a necessidade de uma política permanente
As duas ocorrências registradas nesta semana ajudam a recolocar a saúde mental no debate público de Adamantina, mas também evidenciam que a prevenção do suicídio não pode depender exclusivamente de uma campanha realizada durante o mês de setembro.
O próprio município afirma, em sua resposta ao Siga Mais, que a prevenção deve ser uma responsabilidade permanente da rede de saúde.
A discussão, portanto, ultrapassa a realização de ações específicas do Setembro Amarelo. Envolve a capacidade de identificar precocemente situações de sofrimento, oferecer acolhimento, garantir acompanhamento, ampliar o acesso aos profissionais quando necessário e estabelecer caminhos claros para situações de crise.
Também envolve a comunidade. Muitas vezes, o primeiro sinal de que alguém não está bem é percebido por familiares, amigos, colegas de trabalho, professores ou outras pessoas próximas, antes mesmo de chegar aos serviços de saúde.
Para quem está em sofrimento, buscar ajuda é uma forma de cuidado. Para quem convive com alguém nessa condição, ouvir sem julgamentos, levar a situação a sério e ajudar no acesso aos serviços de saúde pode ser decisivo.
A Secretaria Municipal de Saúde informa que permanece trabalhando no fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial, na qualificação dos profissionais e na ampliação do acesso ao cuidado em saúde mental, com atenção às situações de crise e à prevenção do suicídio.
Fonte: Siga Mais>
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