Produtores da Nova Alta Paulista investem em qualidade para conquistar espaço no mercado de cafés especiais
Nossa Lucélia - 28.10.2026


Manejo cuidadoso, colheita seletiva e processos adequados de secagem ajudam a destacar a bebida regional; cafeicultores de Osvaldo Cruz e Parapuã foram premiados em concurso de qualidade

Região - A produção de um café especial começa muito antes de a bebida chegar à xícara. Na Nova Alta Paulista, cafeicultores têm investido em técnicas de manejo, seleção dos grãos e cuidados no processamento para obter uma bebida com aroma marcante, doçura natural e sabor equilibrado. A estratégia também envolve a produção de microlotes e nanolotes, que permitem destacar características específicas dos cafés cultivados na região.

A qualidade depende de uma série de fatores, desde a preparação do solo e a nutrição das plantas até o ponto de maturação dos frutos, a colheita e os procedimentos de pós-colheita. A atenção a cada etapa é fundamental para preservar os atributos da bebida e evitar defeitos que possam comprometer o resultado final.

Em Osvaldo Cruz (SP), o produtor Lucas Antônio Neves Benites trabalha com cafeicultura há três anos. A atividade teve continuidade em uma propriedade adquirida pela família, que já possuía uma lavoura. Desde então, ele passou a investir em técnicas de manejo para melhorar a qualidade dos grãos.

“A produção do café de qualidade não é simples, começamos o manejo desde o início, trabalhamos com análise para entender as necessidades da planta, com isso fazemos as adubações corretas, atendendo a todas as necessidades da lavoura”, explicou.

Segundo Lucas, as análises de solo e foliares ajudam a identificar as necessidades nutricionais das plantas e orientar a aplicação adequada de fertilizantes. O controle de pragas e doenças também é essencial para manter a saúde da lavoura e evitar prejuízos à produção.

Entretanto, os cuidados não terminam na colheita. A secagem e o armazenamento são etapas decisivas para preservar as características dos grãos.

“A secagem de maneira incorreta é um dos principais fatores. Deixar o café com camadas muito grossas no terreiro pode favorecer a fermentação”, alertou o produtor.

Ele também chama a atenção para o uso de temperaturas muito elevadas nos secadores e para o armazenamento em ambientes quentes e úmidos, condições que podem prejudicar o aroma e alterar o sabor da bebida.

Colheita seletiva influencia o sabor - Em Parapuã (SP), a cafeicultura faz parte da história da família Altrão. Aos 60 anos, Santo Altrão conta que cresceu entre os cafezais e aprendeu a trabalhar com a cultura ao lado do pai. Depois de enfrentar dificuldades financeiras e se afastar da atividade, retornou à produção com os filhos, que também participam do cultivo e do processamento dos grãos.

A família trabalha com café arábica e realiza diferentes etapas da produção, incluindo colheita, beneficiamento, preparo e torra. A experiência também permitiu comparar a bebida regional com cafés produzidos em outras partes do Brasil.

Santo afirma ter identificado características próprias nos cafés da Nova Alta Paulista, especialmente no equilíbrio entre doçura, corpo e acidez. Para alcançar esse perfil, porém, a seleção dos frutos no momento adequado é fundamental.

O produtor compara a maturação do café à de uma fruta: assim como uma manga madura apresenta características diferentes de uma fruta ainda verde, o café colhido no ponto ideal pode oferecer uma bebida com maior concentração de açúcares e sabor mais agradável.

“Você vai ter prazer em chupar aquela manga. E o café é a mesma coisa: se você faz uma colheita seletiva, colhe os grãos cereja, que estão maduros, ele vai dar uma bebida mais suave, ele vai ter mais concentração de açúcar, vai aparecer nele mais o sabor”, comparou.

De acordo com Santo, o acompanhamento da lavoura deve ocorrer durante todo o ciclo produtivo. Na região, as condições climáticas também exigem atenção ao controle de pragas, como o bicho-mineiro, que pode provocar a desfolha das plantas e comprometer seu desenvolvimento.

A florada costuma ocorrer entre setembro e outubro, dependendo das condições de chuva, enquanto a maturação e a colheita acontecem, geralmente, entre abril e maio. Nesse intervalo, o manejo adequado ajuda a preparar a lavoura para produzir frutos de qualidade.

Na pós-colheita, os cuidados continuam. O café recém-colhido não deve permanecer amontoado e úmido por muito tempo, pois isso pode favorecer fermentações indesejadas. No terreiro, os grãos precisam ser revolvidos várias vezes ao dia para permitir uma secagem uniforme.

“A pré-colheita e a colheita são definitivas para você ter um café de boa qualidade”, ressaltou o produtor.

Microlotes e nanolotes destacam características específicas - A busca por cafés especiais também envolve a separação da produção em lotes menores, que podem apresentar diferenças relacionadas à variedade cultivada, às condições da lavoura, à maturação dos frutos ou aos processos de pós-colheita.

De acordo com o Sebrae-SP, os microlotes podem corresponder a parcelas específicas de uma propriedade, selecionadas por suas características de cultivo ou processamento. Já os nanolotes representam recortes ainda mais específicos da produção, podendo envolver pequenas áreas ou métodos particulares de pós-colheita.

As quantidades e os critérios de classificação variam conforme as regras de cada concurso. Na oitava edição do Concurso de Qualidade do Café Arábica da Nova Alta Paulista, as amostras das duas modalidades tiveram volumes distintos.

“Na competição tivemos duas modalidades, o microlote, que compõe uma amostra de 180 kg e o nanolote, que foi a que eu ganhei, que é composta por uma amostra de 90 kg. O que diferencia uma da outra é a quantidade da amostra”, explicou Lucas.

A divisão permite avaliar diferentes perfis de café e identificar produções que se destacam pela qualidade. Mais do que a quantidade colhida, o objetivo é valorizar os cuidados adotados em cada etapa, da lavoura à preparação dos grãos.

Avaliação sensorial determina a qualidade da bebida - A qualidade de um café especial não é determinada apenas pela aparência dos grãos. Nas avaliações sensoriais, provadores especializados analisam atributos como fragrância, aroma, sabor, doçura, acidez, corpo, finalização e equilíbrio. A presença de defeitos também pode influenciar a pontuação.

Para Santo Altrão, uma das características importantes dos cafés da Nova Alta Paulista é a harmonia entre os diferentes atributos, sem que um deles se sobressaia excessivamente.

“Não que a acidez não seja valorizada, ela tem que ter no café, mas tem que ter um equilíbrio. E não é um café tão licoroso, mas também não tão fraco, ele tem um corpo equilibrado, aquela persistência na sua boca, o gosto de café. E a doçura, acho que é fundamental, porque ele tem uma doçura mediana que faz com que você consiga tomar o café sem açúcar. Ele tem pouco amargor. Esse pouco amargor do café da Nova Alta Paulista é único”, afirmou.

Na avaliação do produtor, a combinação entre doçura, corpo equilibrado, acidez e baixo amargor contribui para diferenciar a bebida regional e ampliar seu potencial no mercado de cafés especiais.

Concurso reconhece produtores da região - A valorização da cafeicultura regional tem sido incentivada por iniciativas como o Concurso de Qualidade do Café Arábica da Nova Alta Paulista, cuja oitava edição teve a premiação realizada em Osvaldo Cruz.

Além de reconhecer o trabalho dos cafeicultores, o evento busca ampliar a visibilidade da produção regional e fortalecer a identificação do café com seu território. Segundo Guilherme Soares, a iniciativa também contribui para divulgar a Indicação Geográfica do Café Arábica da Nova Alta Paulista e estimular a participação dos produtores em outras competições.

Na categoria nanolote, Lucas Antônio Neves Benites conquistou o primeiro lugar, com 81,91 pontos. Já na categoria microlote, o vencedor foi Augusto Enrico Gonsales Altrão, representante da família Altrão, de Parapuã, com 82,91 pontos.

Para Santo Altrão, o reconhecimento demonstra o potencial da região para produzir cafés especiais e agregar valor à atividade. O produtor defende que os cafeicultores invistam em eficiência e qualidade, sem priorizar exclusivamente o volume da colheita.

A expectativa é que a valorização dos cafés da Nova Alta Paulista incentive novos investimentos na cultura, fortaleça a cadeia produtiva e aproxime produtores, beneficiadores, torrefadores e consumidores.

Com atenção ao manejo, à maturação dos frutos e aos processos de pós-colheita, os cafeicultores buscam consolidar a identidade do café regional e ampliar seu espaço entre as bebidas de qualidade diferenciada.



Fonte: g1 P. Prudente/Colaborou sob supervisão de Stephanie Fonseca



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